A Lei Maria da Penha e o Direito Antidiscriminatório: uma análise sob a perspectiva antissubordinatória

Autores

DOI:

https://doi.org/10.5281/zenodo.18432337

Palavras-chave:

teorias jurídicas feministas, direitos humanos da mulher, desigualdades estruturais, violência de gênero, igualdade material redistributiva

Resumo

Este artigo analisa a Lei n. 11.340/2006 (Lei Maria da Penha – LMP) como resultado da interseção entre as teorias jurídicas feministas, os direitos humanos das mulheres e a mobilização social dos movimentos feministas brasileiros. Parte-se do seguinte problema de pesquisa: em que medida a racionalidade jurídico-normativa da Lei Maria da Penha se alinha à perspectiva antissubordinatória do Direito Antidiscriminatório e quais são os limites e as tensões da atuação estatal que condicionam seu potencial emancipatório? Utiliza-se metodologia qualitativa, de natureza dogmático-crítica, com base em revisão bibliográfica e interpretação normativa. Como estratégia analítica, propõe-se a decomposição estrutural dos eixos que informam o projeto normativo da LMP em três categorias: (i) construção do sujeito de proteção e vulnerabilidade extrínseca; (ii) igualdade material, medidas redistributivas e ações afirmativas; e (iii) dever estatal de proteção integral e organização da resposta institucional. Sustenta-se que a LMP transcende o paradigma repressivo-punitivo ao reconhecer a violência de gênero como mecanismo de opressão estrutural e ao impor ao Estado deveres positivos de prevenção, proteção e reparação. Conclui-se que a abertura hermenêutica da LMP, sob a lente interseccional, potencializa sua força emancipatória, embora revele tensões internas persistentes, como os riscos do punitivismo, os limites do protecionismo estatal e os desafios de inclusão de mulheres em contextos de sobreposição de vulnerabilidades.

Biografia do Autor

Sirlei Martins da Costa, Tribunal de Justiça do Estado de Goiás

Doutoranda em Constituição, Democracia e Estado de Direito pelo Instituto de Direito Público. Mestre em Cultura Jurídica pela Universidade de Girona, Espanha.

Marcela Repezza Issy, Tribunal de Justiça do Estado de Goiás

Cursando MBA em IA Generativa, Direito Digital e Inovação pela Universidade de São Paulo, USP. Especialista em Direito Processual Civil pela Escola Superior do Ministério Público do Estado de Goiás.

Rennan Kevim Costa Santos Weidgenant, Tribunal de Justiça do Estado de Goiás

Cursando Especialização em Direito Processual Civil pela Faculdade Baiana de Direito. Especialista em Direito Digital pela Universidade do Vale do Rio dos Sinos. Currículo Lattes: http://lattes.cnpq.br/235581417867938.

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Publicado

30.01.2026

Como Citar

Costa, S. M. da, Issy, M. R., & Weidgenant, R. K. C. S. (2026). A Lei Maria da Penha e o Direito Antidiscriminatório: uma análise sob a perspectiva antissubordinatória. Revista Goyazes, 3(1), 268–288. https://doi.org/10.5281/zenodo.18432337

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